segunda-feira, 29 de março de 2010

A Guerra do Fogo

Começo aqui uma caminhada ousada. Pretendo analisar 40 filmes, um por semana, até o fim do ano. Todos os filmes fazem parte da filmgrafia do livro Economia Política - uma introdução crítica, de José Paulo Netto e Marcelo Braz. A idéia será relacionar os filmes com a temática da Economia Polítca. Faço uma ressalva, eu não tenho todos os filmes, então, talvez não consguirei atingir minha meta, mas não custa nada tentar.




O fantástico filme de Jean-Jaques Annaud, A Guerra do Fogo, produzido em 1981 em uma parceria entre Alemanha e Canadá, é uma demonstração de como uma história pode ser contada sem uma única palavra. Annaud narra a trajetória de uma tribo de hominídeos e sua dependência à natureza (no filme essa dependência restringe-se especificamente ao fogo). Na película, três membros de uma tribo que se separam do restante do grupo para encontrar o elemento do qual dependem.


No percurso, nossos heróis se deparam com animais maiores e que tentam devorá-los, além de outras tribos, com hominídeos de diversas formas e desenvolvimentos. Entre essas tribos, uma acaba capturando um dos hominídeos e mais tarde, os outros dois. Percebe-se nessa nova tribo um avanço cultural (com algo que parecem ser cerimônias religiosas, ou alguma coisa do tipo) e tecnológico (com o domínio de técnicas de manipulação do fogo), gerando a produção de excedente.


No fim, os prisioneiros escapam e voltam à sua tribo para ensinar aos companheiros, a técnica de manipulação do fogo, demonstrando mais um salto ontológico na evolução humana. A beleza do filme é inquestionável, desde cenas de luta entre tribos distintas pela disputa do fogo, passando por outras onde os personagens são afugentados, por uma espécie de onça, e ficam em cima de árvores e são obrigados a comer folhas, sem falar na luta desesperada para manter o fogo aceso, já que eles não dominavam a técnica.

Deste filme podemos retirar dois exemplos importantes que envolvem a Economia Política: primeiro que os homens estão fazendo história, independentemente da percepção destes sobre tal fato, ou seja, quando os hominídeos estão manipulando o fogo, produzindo algum tipo de arco e flecha, eles estão redimensionando a relação entre homem e natureza, a partir daquele momento, aqueles seres utilizarão a natureza para produzir seus meios de subsistência, alterando completamente a relação de dependência homem-natureza.


Outro ponto do filme que dialoga com a discussão em torno da Economia Política é a produção do excedente. tantos hominídeos, que ainda não conseguiam produzir excedente, como também tinham uma cultura mais complexa, possuíam um tipo de aldeia, ou seja, estão mais humanizados.

Provavelmente a cena que melhor exemplifique esse humano seja quando dois desses hominídeos fazem sexo e percebe-se uma quebra em relação ao, digamos, “animalismo” existente nas cenas anteriores de sexo. Nesta cena em questão, percebe-se o carinho trocado, a diminuição instintivo e a elevação do afetivo.


Este período da história da humanidade é o que denominamos comunismo primitivo: “os abrigos eram extremamente toscos, a alimentação era obtida através da coleta de vegetais e da caça eventual e imperava o nomadismo. Com a produção de instrumentos menos grosseiros que machados de pedra e, depois, cada vez mais aperfeiçoado (o arco e a flecha, redes de pesca, canoas), assim como os primeiros rudimentos de agricultura, aqueles grupos foram, pouco a pouco, amenizando a condição de penúria geral em que decorria a sua existência” (2007, pág. 56).


Neste momento, a humanidade vive o que alguns teóricos chamaram de comunismo primitivo, mas não nos deixemos enganar, o que existia naquele momento era o que podemos chamar de igualdade por baixo, ou seja, o produzido era logo consumido, sendo assim, o que se via era a divisão da pobreza, exemplo que o filme Guerra do fogo traz, mostrando mulheres e homens morrendo de frio e fome.


Depois de mais de 30 mil anos de existência, aproximadamente, a comunidade primitiva começa a entrar em extinção graças, principalmente, a dois fatores: a domesticação de animais e o surgimento da agricultura.


“As comunidades que avançavam nesta direção logo se distinguiram das outras, dedicando-se ao pastorio e ao cultivo de terras, com o que deixaram o nomadismo e passaram a vincular-se a um território (ou seja, tornaram-se sedentárias” (2007, pág.56).


Exatamente o que aconteceu com a tribo que,no filme, dominou o fogo: com sua aldeia e sua diferenciação, inclusive na estrutura do corpo, algo mais próximo ao corpo dos homens dos dias de hoje, já sem tantos pelos e com a face também mais próxima da nossa.


Com o aperfeiçoamento de instrumentos e controle de algumas forças naturais como o fogo, essas comunidades obtiveram significativas transformações. Entre essas transformações, a principal seria, do ponto de vista da Economia Política, a produção do excedente econômico, “na definição mais breve possível, é a diferença entre o que a sociedade produz e os custos dessa produção. O volume do excedente é um índice de produtividade e riqueza” (1974, pág. 19).


Com o surgimento do excedente econômico, as comunidades primitivas passam pelo que podemos chamar categoricamente de revolução. Não só a miséria começa a ser reduzida, como na primeira vez em sua história, o homem produz mais do que consome, ou seja, acumula os produtos do trabalho.

Bibliografia:

Netto, José Paulo ; Braz, Marcelo. Economia Política: uma introduçã crítica - 3.ed. - São Paulo: Cortez, 2007.

Baran, P.A.; Sweezy, P.M. Capitalismo monopolista. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

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